O fim do mundo
Lev Chaim
O mundo assiste atônito o que está acontecendo no Chile. A setecentos metros de profundidade, 33 mineiros estão enterrados vivos, a espera de um milagre. Eles estavam no trabalho quando a mina desabou. Através de um pequeno canal de comunicação, eles mandam mensagens à família – “o ânimo é desesperador”. Um deles escreveu o desabamento como o fim do mundo. E não é para menos.
Através de uma cartinha de um mineiro à esposa, ele pede para ser tirado dali o mais rápido possível, vivo ou morto. Apesar das autoridades chilenas tentarem levantar a moral dos mineiros acidentados, o ânimo é cada vez mais desalentador. Ao que tudo indica, eles já sabem que um possível resgate, através de um elevador individual, que deverá ser instalado ao longo dos 700 metros de profundidade, deverá durar ainda cerca de três meses.
Não podemos imaginar o que eles estão sofrendo. Não estou falando da falta de ar, do calor, da falta de comida ou de falta de higiene, entre outras mil e uma situações precárias de uma vida naquelas condições. Eu me refiro ao ânimo desses homens que talvez saibam que correm o risco de não sobreviver ao acidente. Quando o salvamento chegar, talvez para alguns já seja tarde demais. Só de pensar nisto, já sinto um calafrio na espinha.
Nem de longe podemos avaliar o que estão sofrendo esses homens rudes, acostumados com a profundeza e a escuridão das minas, porém homens, de carne e sangue, como todos nós. Não são ratos, mas seres humanos que se arrastam em túneis profundos, para tirar uma riqueza que não lhes beneficiam diretamente. Muitos, por um salário de fome, arriscam as suas vidas diariamente, de uma mina para outra, levando uma existência sedentária e nômade.
A família direta dos mineiros afetados por esta catástrofe pode se comunicar eventualmente com eles, através de uma linha telefónica que passa por um tubo, acredito eu, que desce 700 metros no solo. A esposa de um deles disse que o seu marido já está há 25 anos neste trabalho. Numa simplicidade atroz e bastante singular, ela mostra cartas de seu esposo que deixam ver o quanto depressivo ele está.
Marta Salinas disse ainda que a amante de seu marido, Jonni Berrios, de 52 anos, não pode se comunicar com ele porque não é oficialmente da família. Ela acrescentou ainda que quase todos eles, mesmo os casados, têm amantes. Ela justificou isto, na maior simplicidade, dizendo que o fato acontecia porque todos viviam longe da família, numa peregrinação de uma mina para outra. Salinas não deixou de acrescentar que havia ficado muito triste pela fato da amante não ter podido se comunicar com o seu marido. Nesta hora, tudo ajuda.
É como se o ser humano se despisse de todos os egos e se mostrasse nu, frágil, bonito, simples, profundo, sem egoísmo e, para alguns, mostruoso. É como se por um momento, todos se tornassem inocentes, como uma vez no paraíso, onde tudo era flores. Marta Salinas está viva, porém, no momento, tão morta como o seu marido, enterrado vivo a 700 metros de profundidade nos confins da Terra.
Através dos noticiários da televisão, ouvindo as suas palavras simples porém verdadeiras, vendo os seus gestos e a sinceridade de sua dor, lembrei-me de algumas linhas do poema “Blues de um Funeral”, de W.H. Auden, que me marcou muito e o qual eu transcrevo aqui abaixo, numa tradução livre: “Parem os relógios, cortem os telefones, Evitem os latidos dos cães, Silenciem os pianos, Deixem entrar o caixão para que o funeral tenha início. Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste, Meu trabalho semanal e o meu descanso dominical, Minha noite, meu dia, meu discurso, minha canção, Pensei que o amor duraria para sempre: estava errada. “ E como Marta Salinas, existem outras tantas Martas anônimas, que também estão sofrendo caladas a sua dor, a sua imensa dor. Peço a Deus para que dê forças e esperanças a esses mineiros. Peço a Deus por um milagre. Ninguém merece ser enterrado vivo. Já se foram os tempos em que os faraós do Egito antigo, quando morriam, seguindo a tradição, levavam para o túmulo os seus criados, enterrando-os vivos. Tchau e até o próximo sábado.
Lev Chaim é francano, reside na Holanda e escreve neste espaço todos os sábados.
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