Uso de sangue de verme marinho em transfusões é estudado por cientistas

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Durante séculos, o único uso que os humanos encontraram para a Arenicola marina –espécie de anelídeo, rosa escuro, viscoso e intragável– estava na ponta de um anzol.
Mas o status desses invertebrados está prestes a mudar.
Seu sangue, segundo pesquisadores franceses, tem uma habilidade extraordinária de carregar oxigênio.
Aproveitá-lo para as necessidades humanas poderia transformar a medicina, fornecendo um substituto do sangue que poderia salvar vidas, acelerar a recuperação após uma cirurgia e ajudar os pacientes de transplante, dizem os pesquisadores.
“A hemoglobina da Arenicola marina pode transportar 40 vezes mais oxigênio dos pulmões para os tecidos do que a hemoglobina humana”, diz Gregory Raymond, biólogo da Aquastream, uma instalação de aquicultura na costa da Bretanha.
“Ele também tem a vantagem de ser compatível com todos os tipos sanguíneos”, diz.
Raymond e sua equipe, especializada em produção de ovos de peixes, uniram forças com a empresa de biotecnologia Hemarina em 2015 na esperança de garantir um meio confiável de produção de Arenicola marina.
A instalação agora produz mais de 1,3 milhão dessas criaturas a cada ano, e cada uma delas fornece pequenas quantidades de hemoglobina.
O interesse médico na A. marina remonta a 2003, quando o surto da doença das vacas loucas na Europa e a epidemia mundial de HIV começaram a afetar o abastecimento de sangue.
O problema era que a hemoglobina animal, como substituta do equivalente humano, pode causar reação alérgica, potencialmente prejudicando os rins.
Na A. marina, no entanto, a hemoglobina se dissolve no sangue e não está contida nos glóbulos vermelhos como nos humanos –em outras palavras, o tipo sanguíneo não é um problema– e sua estrutura é quase a mesma que a da hemoglobina humana.
Em 2006, o potencial do verme foi validado em um grande estudo.
Cientistas da comuna de Roscoff, perto de Plomeur, extraíram e purificaram a hemoglobina de exemplares de Arenicola marina capturados localmente e a testaram em ratos de laboratório. Os roedores ficaram bem e não mostraram nenhum sinal da resposta imune frequente em outros substitutos de animais.

CONDIÇÕES EXTREMAS

Se provado seguro para os seres humanos, disseram os pesquisadores, o sangue rico em oxigênio do verme poderia evitar o choque séptico –uma queda de pressão arterial que pode causar falência múltipla dos órgãos– e ajudar a conservar órgãos para transplante.
Os ensaios clínicos com o produto sanguíneo começaram em 2015. A hemoglobina da A. marina foi utilizada no ano passado em dez transplantes de rim humano em um hospital da cidade de Brest, no oeste de França, e 60 pacientes estão atualmente inscritos em testes com o produto sanguíneo em toda a França.
Os segredos da hemoglobina da A. marina residem na sua capacidade de sobreviver em condições extremas.
Na maré alta, submerso na água, o verme acumula reservas de oxigênio que permitem que ele sobreviva mais de oito horas fora da água, na maré baixa.
Os cientistas estão entusiasmados com o potencial da hemoglobina da A. marina –embora também apontem para a necessidade de um procedimento de testes rigoroso antes que a molécula possa ser certificada como segura e eficaz para humanos.
“As propriedades da hemoglobina extracelular extraída da A. marina podem ajudar a proteger enxertos de pele, promover a regeneração óssea e levar ao sangue universal”, diz Raymond.
Se essa visão se tornar real, o sangue da A. marina também pode permitir que órgãos doados vivam mais tempo fora dos corpos, potencialmente ajudando milhares de pessoas a cada ano.
E, um dia, o sangue liofilizado desse anelídeo pode ser uma reserva crucial para suprimentos de sangue padrão –uma benção em zonas de combate ou desastres.