Reações apaixonadas

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Depois de muita expectativa e de barganhas políticas, pelo voto da maioria de seus integrantes, a Câmara Federal optou na semana passada por barrar a continuidade do processo contra o presidente Michel Temer no Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de corrupção passiva. Num cenário político polarizado como o do Brasil de hoje e diante dos elevados índices de impopularidade do presidente da República, é natural que a decisão provoque reações apaixonadas entre quem se posiciona de um lado ou outro nessa questão. Numa democracia, porém, a vontade da maioria deve ser respeitada, goste-se ou não da decisão. A alternativa a isso se chama ditadura.

É evidente que, no esforço de barrar essa primeira denúncia, na qual é acusado de ser o destinatário de propina paga pela JBS, o presidente atuou no limite da ética, do bom senso e da lei para assegurar o voto de aliados. A estratégia de convencimento dos deputados significou um custo elevado demais, que será bancado por todos os brasileiros. Depois da liberação de recursos expressivos em verbas parlamentares ainda durante o recesso, o governo recorreu a práticas de risco, incluindo até mesmo o aceno de vantagens tributárias para a bancada ruralista. E mandou de volta à Câmara nada menos de 11 ministros para apoiá-lo.

Práticas políticas que há muito deveriam ter sido banidas só continuam dando resultados porque os parlamentares que integram o Congresso são os que mereceram o voto dos eleitores. Os mesmos legisladores que há um ano decidiram afastar uma presidente da República por impeachment são os que terão também a palavra final sobre a próxima denúncia contra o atual presidente, permitindo ou não que seja processado. Em grande parte, cabe a eles assegurar que, em meio à instabilidade persistente, o país siga adiante, com avanços sobretudo na economia.

Se eleitores estão descontentes com o desempenho do Congresso, devem exercer essa vontade nas urnas, renovando-o e qualificando-o por meio do voto consciente. O que não podem é desconsiderar o resultado de uma votação dentro das regras do jogo democrático, por mais que vá contra sua vontade.