Cortes na Lava Jato

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A política continua em evidência no Brasil e a Operação Lava Jato é seguramente o maior e mais amplo trabalho de investigação realizado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF) até hoje. Expôs as vísceras de um sistema político corrompido pelas propinas de empresas interessadas nas benesses dos poderosos, envolvendo agentes políticos de praticamente todos os grandes partidos brasileiros. Começou investigando o propinoduto construído em torno da Petrobras, mas com o caminhar dos trabalhos e principalmente pelas delações premiadas dos envolvidos, sobretudo executivos de grandes empreiteiras, seus tentáculos se espalharam por todo o País.

Os números atualizados da operação nesta semana pelo Ministério Público Federal mostram o volume de trabalho realizado nos últimos anos. De acordo com o MPF foram 1.434 procedimentos instaurados, 775 ações de buscas e apreensões, 210 conduções coercitivas, 95 prisões preventivas, 104 prisões temporárias e seis prisões em flagrante. A operação surgiu em março de 2014 a partir de um posto de gasolina – daí a origem de seu nome – com a prisão do doleiro Alberto Youssef e em seguida do ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Ela abriu uma janela para o submundo das relações espúrias entre grandes empreiteiras e partidos políticos, que tinham seus “operadores”, um neologismo da corrupção, para desviar recursos daquela que foi a maior e mais lucrativa empresa brasileira.

Ao todo, desvendando os meandros percorridos pelo dinheiro da corrupção, os policiais e procuradores, que trabalham na operação já enviaram 183 pedidos de cooperação internacional, conseguiram 158 acordos de colaboração premiada firmados com pessoas físicas, 10 acordos de leniência e um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Esse trabalho já resultou em 141 condenações com penas que atingem 1.428 anos e o pedido de ressarcimento de R$ 38,1 bilhões.

Não se pode esquecer que durante esses três anos, a operação levou para a cadeia figuras importantes, entre elas os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci e o ex-senador Delcídio do Amaral, todos do PT, além do ex-presidente da Câmara Federal, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ). Todo esse volume de denúncias atingiu inicialmente o Partido dos Trabalhadores e pequenos partidos aliados. Três anos depois, com boa parte da rede de corrupção já exposta, os investigadores começaram a chegar a outras agremiações partidárias que servem de base de apoio do governo Temer, levando certo desconforto ao governo e insegurança aos investigadores da operação.

Há dez dias, o número de delegados de Polícia Federal destacados para a força-tarefa caiu de nove para quatro. Estes terão que cuidar de cerca de 180 inquéritos em andamento e há a intenção de acabar com a atuação exclusiva deles para a força-tarefa. No início do ano, atuavam na operação cerca de 60 policiais entre delegados, agentes e peritos. Hoje são 40 e sem atuação exclusiva. A redução de verbas para a PF, que é geral para toda a corporação, atinge em cheio as equipes da força-tarefa de Curitiba, pois haverá menos estrutura para as grandes operações.