A visão política do povo

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Desde os resultados das eleições do ano passado, muita gente ainda tenta entender seus resultados, principalmente, o PT. Mas de todas as derrotas que o partido sofreu nas eleições municipais de 2016 – em que a sigla encolheu drasticamente em número de prefeitos e vereadores –, nenhuma doeu tanto quanto a de Fernando Haddad, que disputava a reeleição em São Paulo e viu o tucano João Dória Jr. ser eleito já no primeiro turno, o que nunca havia acontecido antes na capital paulista. Haddad não conseguiu vencer nenhuma das 58 zonas eleitorais paulistanas (Dória venceu 56 e Marta Suplicy, duas). Natural, portanto, que o PT fizesse um esforço para entender o que saiu errado. A Fundação Perseu Abramo realizou uma pesquisa com moradores de bairros periféricos e favelas de São Paulo, pessoas que votaram no PT entre 2000 e 2012, mas rejeitaram Dilma Rousseff em 2014 e Haddad em 2016.

Por mais que os entrevistados, devido à rotina estafante do dia a dia, não tenham muito tempo para refletir sobre teoria política e nem sempre consigam distinguir que responsabilidades cabem a cada poder ou esfera de governo, eles demonstraram ter convicções bem fortes que vão além do típico descrédito em relação à classe política. Uma delas é a rejeição ao discurso da “luta de classes”. Empresários e funcionários estão “no mesmo barco”, na expressão empregada pela pesquisa, e dependem uns dos outros para prosperar.

O empreendedorismo, aliás, é uma das aspirações de muitos dos entrevistados, que acreditam no valor do trabalho duro, na meritocracia e nas oportunidades oferecidas quando se é dono do próprio negócio, mais que em programas sociais (cuja importância, no entanto, é reconhecida). E aqui surge uma das constatações mais interessantes da pesquisa: a verdadeira batalha, para os moradores das áreas pobres, não se dá entre elite e povo, direita e esquerda, patrão e empregado, mas entre Estado e indivíduo. Reconhece-se a necessidade de o poder público prover serviços como saúde, educação e segurança, mas ao mesmo tempo há a consciência de que o Estado sufoca a sociedade com burocracia e tributação em excesso – entraves que, se já complicam demais a vida do empresário médio, são fatais para o empreendedor de baixa renda ou menor escolaridade, empurrado para a informalidade (com todos os riscos legais que ela representa, como o de ter sua mercadoria apreendida) ou o fracasso.

Ressalte-se, também, que essas pessoas querem ser reconhecidas como indivíduos. Não se trata de mentalidade individualista (os entrevistados dão valor ao pertencimento a grupos como igrejas, por exemplo), mas de rejeitar o coletivismo que enxerga apenas grupos segregados por critérios sociais, econômicos ou étnicos, e não o valor de cada pessoa. Os entrevistados querem “ser alguém”, e escolhem como modelos pessoas como Dória, Silvio Santos e Lula – reconhecido menos por suas realizações na Presidência que pelo fato de ter sido alguém que “saiu de baixo e chegou lá”. Isso mostra como é importante que se fomente na sociedade o afã pela excelência, para que cada um realize plenamente seu potencial sem se ontentar com o mínimo esforço. E, nesse processo, é fundamental ue as pessoas possam se espelhar em exemplos de integridade e rabalho duro, e não em ícones de moralidade duvidosa que spalhem convicções e práticas daninhas à vida em sociedade.

 

OLHO

Muita gente ainda tenta entender os resultados das eleições municipais do ano passado