Fome no Sudão do Sul ameaça se espalhar

Organizações assistenciais relatam que 290 mil pessoas morrerão se não receberem alimentação regular

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Sudao
Dois meses depois que o mais novo país do planeta declarou um estado de fome, em meio a uma guerra civil, a onda de fome se espalhou mais do que era previsto, dizem trabalhadores de organizações assistenciais.
A região de Bahr el Ghazal Norte, no Sudão do Sul, está à beira de uma onda de fome extrema, com 290 mil pessoas em risco de morte se não receberem assistência alimentar regularmente. Os trabalhadores de organizações assistenciais dizem que as condições só vão piorar, com a aproximação da estação de escassez.
Em fevereiro, o Sudão do Sul e a ONU (Organização das Nações Unidas) declararam formalmente um estado de fome no Estado de Unity. Agora, cinco condados na região de Bahr el Ghazal Norte enfrentam o mesmo destino.
“Os cinco condados estão deslizando para a catástrofe”, disse um trabalhador assistencial, que falou sob a condição de que seu nome não fosse revelado porque ele não tem autorização para se pronunciar publicamente sobre o assunto. “Se não fosse pela assistência alimentar, o lugar estaria passando por uma onda de fome nível cinco”.
A região de Bahr el Ghazal Norte e seu 1,4 milhão de moradores se mantiveram relativamente em paz durante os três anos de guerra civil no Sudão do Sul. Mas devido à disparada na inflação causada pelo conflito, à severidade das condições climáticas e à localização remota da região, ela se viu severamente afetada pela onda de fome.
“Estou preocupada porque um dia desses eu e meus filhos vamos morrer por falta de comida”, disse Abuk Garang. A jovem mãe contemplava as pernas emaciadas de seu filho enquanto ele tentava ansiosamente mamar.
O menino, William Deng, nascido em setembro, tem o tamanho de um recém-nascido. Incapaz de sugar leite dos seios da mãe, a criança tinha lágrimas nos olhos, e começou a morder o próprio punho.
Garang tentou consolar o menino, mas sabe que ele está morrendo de fome.
“Há três dias só temos folhas para comer”, ela disse. “Se não aparecer comida, ele vai morrer”.
Quando Garang ouviu dizer que comida estava sendo distribuída em uma cidade vizinha, ela e milhares de outras pessoas acorreram a ela, em desespero. Depois de horas de espera, ela sorriu, mostrando o saco de sorgo que havia recebido, e depois escondeu o rosto, embaraçada pelo entusiasmo que havia demonstrado.
Uma a uma, as pessoas entravam cambaleando no centro de distribuição de alimentos da organização assistencial World Vision. Algumas delas haviam atravessado a savana a pé, ainda que tivessem dificuldade para se locomover, e outras tinham os pés ensanguentados depois de horas de caminhada sob o sol inclemente.
Uma corrente interminável de mulheres carregando crianças raquíticas às costas e com bebês que elas tentavam amamentar se estendia por quilômetros.
A World Vision na semana passada lançou a fase inicial de um programa que fornecerá comida a 65 mil pessoas do condado de Aweil durante o mês de abril. O objetivo é começar por 17 mil dos moradores mais severamente subnutridos e vulneráveis.
Os trabalhadores assistenciais dizem que não estavam preparados para o nível de desespero que encontraram.
“Fiquei chocado com o número de crianças subnutridas que encontramos aqui”, disse Rose Ogola, gerente de comunicações da World Vision no Sudão do Sul. “E o ar de desespero das mães”.
Só na pequena cidade de Malualkuel, onde a comida foi distribuída, líderes locais dizem que existem quatro mil pessoas sofrendo fome extrema, em uma população de seis mil habitantes.
“É o pior que já vi em 12 anos, em termos de segurança alimentar e de mortes causadas pela fome”, disse James Maywien Aror, comissário de assistência e reabilitação no condado de Aweil Leste. “Fico triste. Não gosto de ver pessoas morrendo.”
Durante uma reunião de revisão sobre a situação alimentar e de segurança na cidade de Aweil, na semana passada, trabalhadores assistenciais e representantes do governo estimaram que o número de pessoas de Bahr el Ghazal Norte que devem sofrer fome extrema nos próximos meses será entre 3% e 5% mais alto do que previam anteriormente.
“A região requer assistência humanitária regular”, disse George Fominyen, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU no Sudão do Sul. “Sem isso, e sem uma melhora na condição das pessoas lá, teremos a ameaça de que a fome evolua para o nível cinco”. Na escala mundial de classificação de segurança alimentar, o nível cinco equivale a uma onda de fome severa.