Dois jovens morreram baleados na Venezuela

Cresce tensão entre manifestantes pró e contra Maduro; houve passeatas em Caracas e outras cidades

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Em clima de tensão, manifestantes fizeram nesta quarta-feira (19), em Caracas, o sexto protesto deste mês de abril contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Apoiadores do presidente também participam de atos públicos. A manifestação acontece um dia depois de o governo ativar plano para impedir suposto golpe militar.
As forças de segurança dispararam gás lacrimogêneo contra os manifestantes que realizavam o que classificaram como a “mãe de todas as passeatas” contra Maduro. Dois jovens morreram em consequência dos distúrbios.
Um estudante envolvido por acidente em um confronto morreu com um tiro na cabeça na capital. De acordo com testemunhas e um familiar ouvidos pela reportagem, Carlos Moreno estava indo jogar futebol em Caracas e não planejava participar do protesto quando defensores do governo se aproximaram de uma aglomeração de opositores e abriram fogo. Moreno foi baleado na cabeça, disseram.
No estado de Táchira, no extremo oeste do país, uma mulher morreu, também por causa de um disparo, segundo disseram testemunhas e familiares.
Oposicionistas protestaram em Caracas e outras cidades, criticando Maduro por, em sua visão, arruinar a democracia e mergulhar a economia no caos. As multidões chegaram às centenas de milhares, incluindo os apoiadores de Maduro que realizaram contramanifestação na capital, incentivados pelo presidente.
As passeatas opostas renderam comparações com os confrontos entre manifestantes pró e antigoverno de 2002 que desencadearam um breve golpe de Estado contra o falecido líder Hugo Chávez.
Brandindo a bandeira venezuelana e gritando “Chega de ditadura” e “Saia, Maduro”, manifestantes interditaram um trecho da principal rodovia de Caracas. Soldados usaram gás lacrimogêneo nos bairros da capital e na cidade fronteiriça de San Cristóbal.
“Temos que protestar porque este país está morrendo de fome”, disse Alexis Mendoza, administrador de 53 anos que marchava no bairro El Paraiso de Caracas. “Há muitas pessoas da oposição e elas estão cheias de coragem”.

Protestos anteriores
A manifestação se seguiu a uma quinzena de protestos violentos nos quais cinco pessoas foram mortas, motivados por uma decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) de março por meio da qual a corte assumiu os poderes do Congresso de maioria opositora – e que a revogou rapidamente devido à pressão internacional.
Mas a medida alimentou uma revolta já antiga com a maneira como o governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) administra a economia. O país exportador de petróleo sofre com uma escassez de alimentos e de bens de consumo de estilo soviético e com uma inflação de três dígitos.
A oposição está exigindo um cronograma para as eleições estaduais adiadas, o fim da repressão aos protestos e respeito pela autonomia da legislatura dominada pelos opositores.
Maduro afirma que os protestos recentes foram pouco mais do que esforços da oposição para fomentar a violência e derrubar seu governo.

Alta tensão
Na terça-feira (18), Maduro anunciou a ativação do “Plano Zamora”, uma operação militar, policial e civil com o intuito de impedir um suposto golpe de Estado. A ativação desse plano aconteceu no mesmo dia em que a maioria opositora do Parlamento venezuelano pediu às Forças Armadas para que parem de reprimir as manifestações da oposição e que sejam leais à Constituição.
Maduro anunciou ainda que foi detido um dos líderes do “complô militar” contra seu governo e um comando da oposição que pretendia atacar sua própria manifestação.
“Capturamos um dos líderes do complô militar que estamos desmantelando há três semanas. Já se encontra preso e está sendo processado na jurisdição militar encarregada de todos os golpistas, civis e militares, incluindo os reformados, como é o caso”.
“Também capturamos um grupo de infiltrados, procedente do interior do país (…), um comando da oposição com armas e planos para agredir a mobilização convocada pela direita”, revelou Maduro.