Coisa de brasileiro  

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Após a redemocratização e a volta dos civis ao poder, sobretudo após a promulgação da Constituição de 1988, virou moda nos meios políticos e intelectuais dizer que o Brasil era diferente e que, por isso, o país deveria adotar soluções próprias para seus problemas econômicos e não imitar medidas adotadas em outros países, mesmo aquelas que deram certo no mundo desenvolvido. Em nome dessa crença, o Brasil executou várias invencionices na economia, inclusive cinco planos econômicos para combater a crônica inflação dos anos 80 e 90.

No período do governo Sarney, de 1985 a 1990, os economistas do PMDB inventaram políticas esquisitas como se o Brasil fosse de fato diferente e como se a inflação por aqui fosse doença com causas e soluções diversas das verificadas nos demais países capitalistas ocidentais. Em larga medida, não foi só o Brasil que entrou nessa onda estranha. Praticamente todos os países inflacionários da América Latina embarcaram no mesmo discurso e, por isso mesmo, passaram a tentar a cura do mal com remédios heterodoxos que, de resto, nunca funcionaram.

Somente nos anos 90, depois de diversos remédios errados e inócuos – os quais, além de não curarem o mal da inflação, acabaram por produzir efeitos deletérios que pioraram a distribuição de renda e aumentaram a pobreza –, o Brasil achou o caminho do combate eficaz da inflação com o Plano Real, em 1994, após ter conseguido perceber que os desacertos econômicos tinham as mesmas causas conhecidas na literatura econômica mundial e que o país não tinha nada de diferente.

Como o Brasil é o país das ideias estranhas, há agora economistas e políticos da esquerda defendendo amplo programa de gasto público em obras e investimentos sob o argumento de que isso tiraria o país da recessão e provocaria a retomada do crescimento. Quando alertados de que esse tipo de proposta levaria o país a mais déficit fiscal e explosão da dívida pública – pois o aumento de gasto governamental financiado com aumento de impostos tem efeito neutro, já que os maiores gastos do governo corresponderiam a menos gastos das pessoas e empresas em face do aumento tributário –, os defensores dessa ideia justificam dizendo que países como os Estados Unidos e Itália têm dívidas estatais que superam o Produto Interno Bruto (PIB) e mesmo assim estão em melhor situação que o Brasil.

Ou seja, antes diziam que no Brasil tudo é diferente, agora usam exemplos internacionais, que não se aplicam aqui, para defender déficit e aumento da dívida do governo.