Barreira da língua não existe para Borges

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Lev Chaim*

O grande e imponente escritor da literatura mundial, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), teve os seus poemas traduzidos para a língua holandesa em 2011. Agora chegou a vez de seus ensaios e contos serem traduzidos, que deixaram a Holanda boquiaberta. Os que já o leram só têm elogios que são os mesmos que já foram feitos antes para Borges: fantástico, brincalhão, imponente, literário de tamanha beleza e com um profundo conhecimento dos clássicos da literatura mundial.

Ao me deparar com tudo isto, fiquei imensamente feliz. Até parecia que havia nascido também em Buenos Aires, cidade natal do autor. Mas não. Tenho uma história particular com este grande gênio da literatura, que nunca ganhou o Nobel, mas todos são unânimes em dizer, inclusive agora os holandeses: uma pena para o premio Nobel. Uma vez, caminhando pelo centro de Buenos Aires, eu o vi andando, pela Calle Florida, ao lado da então sua secretaria, Maria Kodama, que mais tarde tornou-se sua esposa. Entrei numa livraria, comprei um livro dele e planejei voltar no dia seguinte naquela local para pedir um autógrafo. Dito e feito. Ele não se espantou, foi gentil e ganhei um sorriso também de Maria.

Depois de muitos anos, me deparo com esta imensa tradução dos trabalhos de Borges para o holandês (Barber van de Pol e Mariolein Sabarte Belacortu, editora De Bezige Bij), que me trouxe todas essas recordações daqueles tempos de muitos anos atrás, de quando lia Borges sem parar: contos sobre o tempo, eternidade, espelhos, labirintos, bibliotecas, panteras, rosas, sonhos e filosofias. Em suas linhas engenhosas, Borges sempre nos lembrava as suas fontes, que podiam ser um escritor da antiguidade, como também um escritor moderno, dos tempos e países distantes, tal qual os holandeses Harry Muslich e Cees Nooteboom.

E com estas novas traduções quase completas das obras do escritor argentino para o Holandês, junta-se ao mitológico status do autor o fato biográfico de que ele viveu metade de um século cego e, quando se tornou o diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, em 1955, não pode ler a coleção da biblioteca com cerca de 900 mil livros. Tinha que pedir ajuda às alunas e secretárias. Maria Kodama foi uma delas, que o admirava muitíssimo e acabou se casando com ele. Antes de me encontrar por acaso com ele nas ruas de Buenos Aires, eu já o havia visto em uma conferência no prédio do jornal A Folha de São Paulo, em São Paulo. Foram impressões fortes que ficaram e nunca mais se foram.

Para mim não foi surpresa que os holandeses de bom gosto se apaixonaram pelos contos de Borges, tal qual o seu mais conhecido, O Aleph. O conto se inicia e se finaliza como uma trágica história de amor. Mas a medida que você progride na leitura, o mistério vai se desvendando aos seus olhos: uma pequena bola onde cabiam todas as partes da mundo, vistas dos mais diversos ângulos. Neste momento, você está totalmente inserido no mundo de Borges: a partir de detalhes concretos e personagens realistas, inicia-se uma situação em que pensamentos filosóficos alternados fazem o impossível virar possível.

Seus ensaios também estão ao poucos atingindo os leitores eruditos holandeses, que já vislumbram em Borges um pensador aventureiro, que navega facilmente em todos os tipos de água e assuntos, desde Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes,  até o grande mestre da literatura italiana, Dante Alighieri, com a sua A Divina Comedia. Na minha opinião, seus melhores ensaios são sobre o tempo, em que não existe passado, presente e nem futuro, onde Borges nos deixa um pouco zonzos, intrigados, como se percebêssemos um pouco da própria situação em que se encontrava: cego e preso à sua imaginação.

Como já disse, não foi Borges que perdeu por não ter ganho um Nobel de Literatura, mas foi a própria Associação do Nobel Sueco que perdeu uma grande oportunidade de dar o prêmio a um gênio literário da sua espécie. Fiquei contente para os holandeses: agora eles poderiam tomar conhecimento de Borges em sua própria língua.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todos os sábados para o Diário da Franca.